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“Não vejo nada. É como ter o olho tapado”. Glaucoma afeta perto de 200 mil portugueses

Abel Resende
"Não vejo nada. É como ter o olho tapado". Glaucoma afeta perto de 200 mil portugueses

Aos 50 anos, Maria Otelina Rocha sentiu que estava a perder a visão do olho esquerdo. “Até então, nunca tinha tido qualquer problema na vista. Quando fui ao especialista, detetaram-me glaucoma”, conta ao DN. Equacionaram uma operação, mas não se concretizou. Seguiram-se tratamentos com gotas, que ainda mantém, mas a doença continuou a progredir. “Do olho esquerdo não vejo nada. Nem um clarão. É como ter o olho tapado”, conta Maria, agora com 86 anos.

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É o marido quem atende o telefone, porque Maria desloca-se com alguma dificuldade. Além da perda total de visão do lado esquerdo, vê “muito pouco do olho direito”. Deixou de sair de casa, de ser uma pessoa autónoma. “Para conseguir ver televisão, por exemplo, tenho de me encostar ao aparelho. Já não vejo quase nada”. José, o marido, foi operado recentemente às cataratas (outra doença que causa perda da visão). “Ele ficou a ver a 100%. Mas, no meu caso, não há nada a fazer”, lamenta

O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível a nível mundial. Em Portugal, estima-se que afete entre 150 a 200 mil pessoas com mais de 45 anos. É uma doença silenciosa, progressiva, incurável. Pode, no entanto, ser controlada e progredir de forma mais lenta, se o diagnóstico for feito precocemente. A propósito da Semana Mundial do Glaucoma, que termina no sábado, a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO) alerta para a necessidade de deteção precoce

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Subscrever “O glaucoma é caracterizado pela ausência total de sintomas, portanto o doente está completamente dependente do médico para fazer o diagnóstico”, diz ao DN Fernando Falcão Reis, presidente da SPO. Não há nenhum país no mundo, prossegue, que tenha ultrapassado o problema do diagnóstico com eficácia. “Nas fases iniciais o doente tem alguma perda de visão periférica, mas, estranhamente, não tem a perceção que ela está a acontecer. Essa perda é objetivável através de exames específicos, mas não é percecionada pelo próprio”. Quando se apercebe, pode ser demasiado tarde

“O doente tem alguma perda de visão periférica, mas, estranhamente, não tem a perceção que ela está a acontecer”

A principal causa do glaucoma primário de ângulo aberto é desconhecida, mas existem alguns fatores de risco bem determinados. “A história familiar – a componente genética – aumenta 6 a 8 vezes o risco de aparecimento da doença” , alerta Falcão Reis, diretor do Serviço de Oftalmologia do Centro Hospitalar São João. Além disso, “a hipertensão ocular, a idade – a prevalência aumenta muito por cada década de vida a partir dos 45 anos – e a raça negra” também fazem aumentar a incidência da doença, que afeta 1 a 2% da população mundial

Quem tem história familiar de glaucoma deve dirigir-se ao oftalmologista para um despiste da doença, alerta o especialista. Para a população geral, o presidente da SPO diz que é necessário ter consciência de que “a doença existe e que tem uma prevalência elevada” . A receita de óculos, “que muita gente precisa a partir de certa idade para ver ao perto, deve coincidir com um exame oftalmológico completo”. Segundo Falcão Reis, “a partir dos 45 anos, qualquer par de óculos melhora a visão ao perto”, mas ao levantar os óculos numa farmácia, por exemplo, “perde-se a oportunidade de fazer um exame” aos olhos

“É um inimigo silencioso” José Manuel, de 71 anos, nunca tinha tido qualquer problema de visão até aos 68. “Via tão bem, que os meus amigos ficavam espantados”, recorda, destacando que nunca tinha equacionado ir a um oftalmologista. A determinada altura, começou a sentir uma “neblina na vista”. Inicialmente desvalorizou. “Como me mantenho ativo, pensava que era stresse”. Mas o problema manteve-se. “Quando fui à consulta de oftalmologia, já era tarde. A doença já tinha avançado. O glaucoma é um inimigo silencioso”

Após ser observado na consulta do Hospital de São João, no Porto, José foi submetido a uma cirurgia ao olho esquerdo, tendo ficado a fazer um tratamento diário com gotas e sujeito a consultas regulares. Diz que faz uma vida praticamente sem limitações. “Só tenho de ter cuidado quando há desníveis nos passeios, pouca luz, ou, por exemplo, nas sequências de sol e pouca luz quando vou a conduzir”, conta

Depois de se instalar, a doença progride. Trata-se de uma neuropatia ótica degenerativa: uma doença do nervo ótico, que conduz a uma perda de células, levando à perda progressiva e irreversível do campo de visão e função visual. “O glaucoma determina uma perda de fibras nervosas. As fibras que se perdem, quando se chega a intervenção médica ou cirúrgica, já não são recuperáveis. Daí a importância da deteção precoce”, destaca o presidente da SPO, acrescentando que, quando o diagnóstico é tardio, “a atrofia do nervo ótico é muito maior”. Nunca se erradica a doença, mas é possível controlá-la. “O papel do médico é fazer com que a progressão seja o mais lenta possível. O tratamento médico ou cirúrgico consegue reduzir ou evitar de todo a progressão para a cegueira”, indica

Numa primeira fase, o tratamento costuma ser farmacológico, nomeadamente através da aplicação de gotas. “Começa com um medicamento e vai aumentando até quatro fármacos. É a terapêutica médica máxima. A partir daí, se o glaucoma continuar a progredir, é candidato a cirurgia. Na maior parte dos casos, a cirurgia não é uma primeira opção”, refere o especialista. Na sua forma final, o glaucoma dá cegueira total. “O doente não reconhece qualquer tipo de luz ou de forma. Fica totalmente incapacitado”

Relação com a hipertensão ocular Existe uma relação entre o glaucoma e a hipertensão ocular, mas não é linear. “Há doentes que têm hipertensão ocular e nunca têm glaucoma” e vice-versa. No entanto, alerta Falcão Reis, há rastreios onde é dito aos doentes com esta característica que têm a doença. “Em cada dez pessoas com hipertensão ocular apenas uma desenvolve glaucoma” , frisa o professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). Nesses rastreios, prossegue, também “fica de fora o glaucoma de detenção normal”, ou seja, “o glaucoma de baixa tensão ou tensão normal [muito frequente nas mulheres], que evolui sem que haja hipertensão ocular”. E os doentes acabam rotulados erradamente

O glaucoma primário de ângulo aberto é, segundo o especialista, uma “forma de glaucoma que constitui um problema de saúde pública, dada a sua prevalência e a dificuldade de fazer um diagnóstico” . Existem outras formas da doença, nomeadamente o glaucoma agudo, mas aí não existem problemas de deteção tardia, uma vez que “dá perda súbita de visão e uma dor muito violenta na zona do olho”